segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Caricias


“Ainda é cedo, amor [...].”
  
Eram misturas daquilo que ficara pregado na pele e com o novo que fora sentido. Eram de fato. Novos sonhos sendo criados na intensidade em que eles se beijavam.
Não se sabe ao certo quanto tempo de fato é que não se viram.
Encontraram-se ali. Dessa vez, com as cicatrizes velhas repostas e aspiração de seguir, de forma distinta. Preservada. Numa intensidade sem interrupções.
Não encontraram barreiras. Tampouco as criaram. Seguiram. Como quem pisa no mar pela primeira vez. Aquele frio na barriga de um primeiro dos muitos encontros que estiveram por vir. E que de fato. Criaram aquela sensação de que o mundo pararia no exato instante em que os lábios discorressem numa mesma tonalidade.
Era noite quente. De verão. Como todos os bons romances daquela época.
Sentiram-se renovados. Como se dançassem ao som daquela musica há tempos e soubessem sincronizadamente onde e quando se deixar evadir e firmar os pés no chão.
De fato era um novo homem. Os mesmos olhos. Talvez pouco mais profundos que da ultima vez. Carregando consigo todo o sinal de vivência. Carregando consigo o outro. Que de fato o carregara também durante todos aqueles anos que ensaiaram o encontro perfeito que nunca era tempo de ser. Haveria o momento certo, exato para as coisas ocorrerem de fato e assim findou.
Torceu seus braços pra contornar e apertar mais o cinto já gasto pelo tempo. Dessa vez não reparou na distancia. E como de costume aumentou o volume no som exato pra que nada atrapalhasse aquele percurso. Não havia tempo de espera, nem delongas. Era aquele friozinho na barriga presente. Nada daquilo o incomodaria. Seguiria sendo, não importava quão grande e distinto seria o próximo passo.  
Caia a chuva espaçada no pára-brisa. Trocou a marcha até escutar o barulho do motor. A música calava tudo o que havia do lado de fora. Ficara só. Exatamente só com o lado bom do que queria naquele exato instante. Afinal vivia sonhos sem intenções exatas. De uma forma onde o outro se sentiria afinal, livre, pra ser aquilo que se ousa ser quando se é feliz.
Já sabiam onde as mãos deveriam se apossar, mesmo sendo o primeiro contato físico. Apertou-o contra o peito.
Indagaram-se. Numa espera a entender-se do outro tudo o que se passara até então. Estavam ali. E tudo acontecia de forma natural e suave. A forma como se olhavam e o brilho nos olhos deixavam aqueles sorrisos indiscutivelmente presente entre eles.
Pediu um café. Teria pedido outro se não fossem tantos os olhares encorpes.
Saíram dali. Entreolharam-se perdidamente. Como quem buscasse um horizonte onde fixar as vontades que o traziam até ali. Falaram-se ininterruptamente. Entendiam-se por vezes nos olhares. Embora as palavras, havia coisas das quais, se foram apenas sentidas.
Contornaram ruas entre as diversas praças que havia.
Estavam ali, parados, pouco abaixo duma arvore qualquer, mas isso não trazia a menor importância.
Fora dessa vez, tocado no âmago. De uma forma cautelosa, simples e doce.
Os dedos entrelaçaram-se entre os fios de cabelos ainda úmidos, nenhuma palavra foi dita. Sentiu-se ali. Afagado.
Entreolharam-se. Como nos outros diversos instantes em que não se ousaram. Aproximaram os lábios. As mãos sobrepostas ao pescoço. Fora tocado.
Sentiu tanto que fora capaz de estar ali absolutamente. Estava repleto de si e do outro. Da essência que lhe fora trocada. Dos lábios acetinados e doces que invadiam de forma sutil o interior daquilo que não fora buscado, mas se pode sentir.
A forma como eles apoderam-se um do outro fora estendida pela acalmada pela brisa breve. Pegaram-se entre os braços pra sentir. Eles se, pela primeira vez.
Acelerou o carro. Dessa vez não aumentou o volume do som. Pouco importava o resto. Queria estar ali. Inteiramente. A realidade da busca fora sentida no instante exato em que se apoderava do outro e se deixara levar.
Passaram por outras praças que viriam a fazer sentido numa outra historia qualquer. Mas ali, dentro do que estavam por viver nada mais importava.
Era como se o outro fosse ele mesmo e não precisasse de nada que o fizesse impressionar. Gostava demasiadamente do equilíbrio que tinha na companhia e por um gesto breve ousou sentir.
O barulho do motor fora interrompido, juntamente as luzes que se baixaram na medida exata do que precisavam e do que estavam por repartir. Eram ali, dois corpos numa magnitude em que se percebe. Tentando se ousar invadir na essência do outro.
Sentiu o primeiro toque nos lábios, enquanto o seu corpo era coberto de torpor. As mãos escorregavam na medida exata do que precisava ser sentido e os corpos estavam ali apenas como intermédio. Para que eles pudessem viver.
Invadiram-se de forma a entender-se um ao outro. Estavam atenuados pelos pingos da chuva do lado de fora que nem se afoitaram pra qualquer acepção que fosse. Eram ali. E todo o resto não importava. Eram como se ali, difundissem todos os devaneios em que sonharam outrora juntos. E que confinantes seriam de tal modo. Um ao outro o que ousaram a si.      

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Desculpas

"Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras
Quase nunca são
Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis que não chegamos a sujar [...]."



Do que viveram e daquilo que se escorre entre os dedos.
Não. Não era falta de entendimento. Fazia falta mesmo quando era presente. Era de fato mais falta do que presença.
Era talvez inconstante na forma de amar. Haveria amor se assim ousasse ser.
Fizeram planos sem razões exatas pra ser. Tentativa fugaz de autoconstrução. Como aqueles em que juntos dão o primeiro passo. Ou pelo menos deveria ser assim.
As incertezas tornaram-se constantes presentes. Foi quando ele se perdeu. Fizeram-se, portanto juras inevitáveis no vazio daquilo que acreditava ou acreditavam ser. Entre as, acreditaram além daquilo que puderam ousar.
Nada resta além do que é fato, tudo de fato vira hipótese. Mas e o que foi de fato compartilhado? Qual era a parte em que combinaram de se esquecer? E o que na verdade se esquece?
[...].
Ele abria os olhos depois de sonhar. Caberia talvez toda a forma de amar dentro da insegurança do outro. Carregava em si o preço de ser exato.
O outro sonhava mais com o presente. Acreditava piamente nos segundos de inexatidão que julgava por ser eterno. Sonhava com o presente, que é o que se tinha nas mãos. Além da exatidão da espera.
Era. Seriam talvez. Constantes. Se assim fosse. E se assim fossem. Abraçaram-se acreditando num amanhã pouco menos denso e bem mais próximo.
[...].
Entrelaçaram-se entre as pernas como um suspiro aliviado. Como se ali, firmassem de fato. Algo de concreto.
[...].
Ventou. Abriu os olhos no momento errado. Havia demasiada luz envolta. O sol era constante em sua pele. Afagou-se por inteiro. As marcas eram nada perto da intensidade do que sentira naquele momento. Como quem está à beira da morte sentiu. Desesperadamente o filme que se passa na cabeça. Lembrou dos olhares. Dos desconcertos. Aquela primeira piscada. Até mesmo quando que, num gesto de confiança se afagou nos braços do outro com medo.
Se lembrou da tonalidade dos seus olhos enquanto a lua banhava sua face. Seus olhos redondos, caramelizados. Doces. De uma fundura inexplicável. Caberia ali o mundo todo. Mas não poderia ir além. Havia ali o medo. Muito medo do próximo passo.
Como quem precisa se encontrar. Deixou dessa vez que o sol o cegasse. E pela ultima vez sorriu por eles. Pelo que viveram. Pelo eterno de busca que fora interrompido. Despiu-se de si. E sem a casca paralisou.
O sol queimava forte em suas costas. Ele nada entendia. O que seria amor. De fato?
Não havia espaço pra raiva. Tristeza. Destreza. Solidão. Estava fechado. Nada mais por ali passava. Estava estático daquilo que o afligia.
Era tempo de partida. Era tempo de seguir adiante. Mesmo se as justificativas não condissessem com tudo o que fora sentido. Mesmo que não houvesse justificativas para um fim. Ou para o que quer que seja. O que quer que fosse.
Ele não se entregou ao mar. Como aquela vez que sentiu através dos lábios do outro o salgado daquelas águas gélidas. Não havia falésias. Nem ondas quebrando a borda congelada daquele eterno. Ficou ali. Como quem se estira na linha do trem esperando. Algo que não sabe da onde. Os trilhos eram de uma voracidade imensa. Embora enferrujados. Por ali não se passava nada. E por nada se foi.
Sentia areia entre os dedos. Indagava a si próprio as questões do outro. Como se houvesse conserto. Buscava na areia quente um pouco de si. Cravava os dedos entre as conchas úmidas tentando buscar no âmago o amparo pelo qual fora desprovido.
Pouco restara. Como todas as outras vezes. Ficara sempre com o pouco de bom que havia em si. A parte boa é a que compartia com o outro. Os fatos. De fato.
Deveriam existir. As razões só não foram ditas. Talvez por medo. Vergonha. Ou sei lá o que. De fato. O que ficaram foram as meias palavras. A metade do percurso.
Derrubou as lagrimas que pôde. E não pôde. Fingiu que aquilo fazia parte de si. Mas não haveria espaço para a dor. Fora pego tão de surpresa que de fato nem as lagrimas pode ousar.
Temperou seus anseios com a brutalidade e o egoísmo do outro. Sentira-se um animal expulso entre meio há tantos outros. Não do que fora dito. Não do que fora ou deveria estar sentindo. Mas da forma ridícula. Idiota. De fato. De como as coisas ocorreram. Sentiu-se estúpido por não revidar. Mas não haveria espaço para mais.
Encontrou-se com seu próprio equilíbrio. E por ali ficou horas a finco tentando outra vez buscar respostas às inquietações do outro.
Sentiu-se livre e ousou voar.
Fingiu que aquilo fazia parte do que tinha ali de fato pra sentir. E como quem não espera trocas, temperou os anseios com a mortalidade do que foi bom de fato e do que restava “pra sempre”, dentro de si.
Estava sorrindo. Quando fora interrompido pelo trinco da porta. Precisava de silêncio. O barulho estagnava os pensamentos que lhe ocupavam mais do que deviam de si. Precisava fugir com aquilo e por ali. Sem nem pensar duas vezes saiu por outra porta. Diferente daquela que entrava. Mesmo que no ambiente houvesse apenas uma. Criou a sua e partiu. Em busca de silenciar o que lhe afligia.
Debruçou-se no assoalho avermelhado, riscou mais forte as letras no papel reciclado e decidiu que ali colocaria mais um ponto. Acreditou naquilo que se pode tocar. Não passara ninguém ali. Tinha o exato silêncio que precisara. Embora o mar agitado batesse na janela ao lado. Nada viu. Nada sentiu. Concentrou-se em si e ali ficou por segundos eternos até encontrar a saída. Um novo parágrafo pra sua vida. Que agora seguia sem o outro.
Era instável demais pra ser. E não da pra sermos se somos sós. Era de certa forma, tudo aquilo que esperava de outro. O ciclo natural. A cadeia alimentar vingou-se da plenitude que sentira e fez ventar em seu castelo de areia. Sentia escorrer pelos dedos e nada pôde fazer. Doía. Latejava. Não havia posição exata que o tirasse aquela letargia.
Precisava sentir-se livre para ventar. E por ali ficou até que os pensamentos vagassem para outros ares e pudesse se sentir mais leve.
Jogou água fria nos olhos que ardiam. De nada adiantou. Fechou os olhos e entendeu que se nada pôde fazer é porque não havia nada que pudesse ser feito. Ou que pudesse ser dito para mudar os fatos.
E de fato. Ou por falta. Ou mesmo por amor. Fugiu do outro. Fugiu de si. Por instantes. Fugiu de tudo. Ou finalmente se encontrou.   

sábado, 7 de janeiro de 2012

Etanol


Encostou os braços entre as pernas. Procurava entre as sombras um espaço para se resguardar. Tentava de uma maneira ou de outra fugir-se.
Olhou diretamente nos olhos. Os seus. Vivos. Distantes. Indagou. Sentiu. Tornou a fechá-los.
Era musica o que lhe afagara há instantes. O presente lhe consumia a espinha e a dor dessa vez, acreditava ser nos ossos.
Sustentava-se na tentativa de qualquer equilíbrio. Erguia os braços, como quem pudesse voar. Tomou pouco mais daquilo que lhe acalmava a mente. Válvula de escape das emoções que ele já não sabia mais porque sentia.
Tirou o pó da mala verde, aquela que em momentos atrás o fizeram mudar de vida. Eram tantos os processos de equidise que já não lhe cabia mais nos dedos.
Usava dos sentidos para se entender. Sentira-se novamente de partida. Sentira a partida. E aquilo lhe abalara completamente. Eram emoções como de quem vai e volta em instante a diversos lugares sem estar de fato, inteiramente, em nenhum deles.
Buscava entre as cores distorcidas do outro dia, entender o pra que das coisas e se sentia só.
Buscara a solidão a todo o momento tentando ou acreditando ser. Sem interrupções saberia o instante exato de parar. Já não mais precisaria ser exato a ponto de acreditar em suas próprias ponderações. As coisas fariam por vez sua própria ordem, sem mentiras, nem fatos. Acreditaria no que quer que fosse para sair dali.
Era tantos ao mesmo tempo em que já não mais sabia quem ser a cada instante. Indagava-se constantemente. Buscava ser daquilo que pudesse ousar ser o mais próximo do que acreditava. Nada será como antes. Cada passo dado ele não mais poderia voltar atrás.
Suportaria quantas perdas mais? Quantas mais personagens suportaria ele ser? Estava no avesso, desconexo a tudo o que planejara ser. Viu mais uma vez que não dava pra ser completo.
Sentia o liquido frio saciar-lhe o calor. Calou-se na espinha. Por dentro fervia. Como se sentisse o sangue coagulado tentar escapar pela boca. Sangrava. Arrumou a gola da camisa. Examinou detalhadamente todas as partes do seu corpo, tentava encontrar algo que nem ele mais sabia o que. Esperava.
Numa mistura de medo e desapontamento resolveu sair daquela letargia e deixou a água escorrer-lhe a face. Os pingos disformes lhe molhavam os lábios ainda secos. Deixou-se invadir por completo. Ou acreditou naquilo que estava (ou tentava) de fato fazer.
Lavou suas mãos, como quem comete um delito e tenta apagar a prova do crime. Tornou a fazer. Parava, entretanto, para respirar. Aliviadamente.
Perdera a noção de quanto tempo estava ali. Fora interrompido como todas as outras vezes que tentou ser. Eram berros que não se interrompiam. De repente uma chamada para o mundo real. Daquele onde as pessoas fingem não sentir. Ou sorriem, mesmo sem ter dentes.
Estava ele ali, mais uma vez, desamparado de si mesmo. Tentando colocar as idéias em ordem. Os sapatos estavam embalados devidamente. Cada um em seu devido saco. Como todas as outras tantas coisas. Tudo como planejado. Mas e o que sentia. Como poderia ele definir aquele abraço que não fora dado no instante em que realmente precisara. Ou dos outros tantos abraços desajeitados e desnecessários que fingiam lhe afagar, mas que o sufocavam.
Sufocado, ele tentava soltar o ar entre as narinas. Algo o prendia. Disforme. Ele tinha medo. Eram olhos para todos os lados. Ele não os via. Ele os sentia. E sentir fazia lhe tremer todo corpo. Foram varias as interrupções forjadas. Ele estava ali, fugindo de si pra fingir ser.
Não estava completo. Driblava ou fingia estar, o sono, já não sabia se encarava como cura. Ou só estava, como todas às vezes, fugindo do que lhe fora imposto.
A musica tomava uma sintonia diferente daquela que ele sentia. Era disforme e aquilo fazia com que ele se sentisse menos preso. Mas dessa vez, em nenhuma circunstância, ousou voar.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Pérolas


Estava ali. Parado. Nada viu. Ninguém se virou pra ver. Seguiu-se. Sendo.
Sentiu-se. Parou. Olhou. Estagnou os olhos. Refletiu por instantes o exato em que se aproximara. Pensou. Por instantes. Pensou. Entendeu coisas que não buscou. Outras. Por ali também estiveram. Sentiu. Sentiu. Segui sendo.
Aproximou-se do espelho como quem se aproxima do perfume da rosa. Delicada. Robusta. Cheia daquilo que lhe poderia ser proteção.
Apertou firmemente os lábios e sentiu ausência. Aquelas mãos estavam longe dali.
Afagou seus cabelos com as pontas dos dedos. Parou. Pesou firmemente aquilo que buscara ha instantes. O cheiro fora sentido.
Pensou. Dessa vez nos lábios cítricos. Exatos. Descompensados. Indagou que poderia ser um sonho dentro de outro. Interpelou-se de compaixão. Arrumou a gola da camisa. O pode ver. Dormindo com os lábios superiores calados. Abertos.
Suspirou. Palidamente sentiu. Parou. Sentiu.
Já perdera a noção daquilo que chamara de ausência. Ofuscou a visão na tentativa do sono. E forçou-se.
Já não se perguntaria mais por quês. Seria se. E se se. Seria. Foi. Andou. Deixou as tantas coisas rodarem pra chegar onde estava. Sentiu-se. Avesso ao que buscara. De fora pra dentro gritou. De dentro respondeu que voltaria a si. Ou ao menos fingiria ser.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Tadieu Bône


. Eram sonhos na possibilidade remota de ser. 
Ela acordara durante a única noite que ousara dormir. Tentativa ilusória de tentar ser.
Mudava as paredes dos quadros. Repintava-os no espelho.
A memória que gritava ausência o fazia seguir. E por instantes seguiu sendo. Aquilo que (mesmo por instantes) precisava ser. Eram claras. As objeções. Todas elas eram.
Fechou os olhos par de vezes tentando invadir o que estava de errado naquele espaço. Foi feliz e gritou ambas vezes no mesmo instante.
Floreou toda a casa. Toda casca. Colorida buscava não se sabe o que pra entender que o espaço não era aquele. Sentia. Ou tentava. Buscava na ausência o ponto de apoio exato. Ainda acreditando em tudo aquilo. Tudo existia. Eram prospectos da sua mente perturbada. Ela via coisas erradas distintas e se calava a cada uma delas. Era prisioneira das suas próprias responsabilidades e estava cansada de ventar a cada manhã. 
Buscava aos berros o silêncio, que rebatiam de forma aguda aquele sentimento perdido. Poucos. Mas ensurdecedores. Indaga veementes os olhos. Os via estranhamente distantes. Fechava-os com agressividade. Os pontos estavam perdidos. E. Ela roucamente imprimia essa vida que não era sua. 
Via. Contorcia vozes intermináveis que a mandavam fugir. Fingia.  A voz. As vozes. Todas elas. No sonho passado era sangue. No de hoje. Até de olhos abertos via sangue. De um vermelho podre. Segurava disformes os restos mortais daquilo que ainda eram ossos. Fedia.
Saudade era isso. Dor e volúpia. Palavras e línguas das quais não se entendia. Absolutamente. Nada. A espera.
A voz dizia pra fugir. A insegurança. A falta de acreditar do outro se entendia como principal causa em seu corpo. Sangrava.
Reinventava as cores que saiam do seu corpo, transformando em novas cores. Rodava em círculos expulsando e exploração que rondava seu corpo. Gritava a algum deus para buscar gloria. Rodavam sem sentidos. Todas conectadas. Cores vivas. Cores sadias. Fortes. Conformes. Umas rondavam as outras. A terra. O ar. A água. Tudo aquilo que fazia parte daquilo que sentia.
Pulou a linha de onde saberia sobre ele. Ela se perderia naquela dança extasiada. Ele se jogou. Extasiado. Sem uma gota do que qualquer que fosse. Só a musica o invadia. Pintava o que sentia. Sentia.
Exasperado. Cansado. Misturou-se num banco qualquer. Do nada. Buscando dessa vez o vazio pra dentro. Eloquentemente diferentes de todas as outras tentativas. Foi feliz ao sentir por instantes a luz do sol em seu corpo. Depois. Depois.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O eu do outro.


Eram redondos e profundos os olhos. Quase que inabitados. Eram ausentes.
Sentiu calafrio esperando ventar.
Os dedos dele percorriam face às minhas ancas. Eram dedos libidinosos que se escorregavam nuca abaixo. Perdidos.
Os dedos do outro percorriam sua face, tentando entender até onde aqueles traços apaixonantes o levariam. Sentiu medo. Tremia. E nada aconteceu.
Os dedos. Ele. D’Eles.
Preferiu a fuga. Nunca admitiria ausência.
Cansado, indagaria tristeza. Colocaria culpa no clima quente que lhe afagava a pele.
Eram todos diálogos desconexos numa espera mutua que jamais os levaria a algum lugar.
Ele achava que o outro sentia demais. De fato sentia. Sentira. Vai sentir. Eram ausências e presenças misturadas no mesmo diagrama. O toque de forma inesperada. Num gesto onde não se sabe onde vai chegar.
O outro é realista nas palavras. Mas as mesmas se perdem ao expressar daquilo que sente.
Sentia algo como medo e insegurança. Mas deixava de sentir quando mais precisava.
Juntou os cacos espalhados pelos cantos esquecidos. Juntou todos. Espalhou em outro novo canto qualquer. Canto esse, que logo seria a base para um novo esquecimento. Sentiu. Sentiu. As lagrimas ardiam-no os olhos. Mas não caíram.
O sono repartido tentava cegá-lo. Era inutilmente vasto. Mergulharia dentro de si para encontrá-lo quantas vezes fosse preciso. Algo dele ainda haveria de estar por lá.
Levantou. Ergueu-se daquilo que ousara chamar de raiva. Numa tentativa frustrada de fingir que não haveria amor. Mas tinha. De amor. Viveu. E de amor. Vive. Por amor. Sentiu. Pela busca. Tentou ser. Tentando ser. Invadiu. Invadindo. Perdeu-se.
Meio como quem tromba nas próprias pernas. Travestiu-se de coragem e foi enfrentar-se junto ao espelho. Gritaram-se. O eu de dentro e a casca. Não se entendiam. Definitivamente. O eu de dentro era emoção demais. A casca despida de afeto feriu. Aquilo que o outro chamaria de amor.
Eram palavras. Construções. As cenas estavam todas preparadas. Embora o protagonista. Embora.
Enxugou o que o outro chamaria de lagrima com as mãos que o ousara tocar. Desmediu-se entre o lençol desbotado e tentou ser.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Razões


Mãos ásperas. Precisas. Como se tocassem a si próprio. Dentro do eu do outro. 
O corpo reagindo contrario ao toque das mãos que permaneciam coladas no pescoço. Contorcia-se todo. Como se não houvesse mais espaços inabitados. Precisas, contornariam aquelas curvas sutis, redesenhando-a toda, de uma forma grave e desalinhada.
Olhos que se abraçavam ininterruptamente. Inevitável. Sorriram. Gritaram. Trocaram-se intensamente.
Eram olhos redondos e ardentes. Fugaz, como quem deseja. Mas incompreensível como quem vive.
Eram pedaços inteiros cortados e colados na medida certa daquilo que precisava. O brilho deles. Esse eu jamais hei de esquecer.
Pela segunda vez encontrei o primeiro olhar, como quem estava perdido em seus próprios atos. Durou o instante que tinha pra durar e ventou.
Encontrei seus lábios cítricos poucos segundos depois. Misturados de essência e medo. Eram passos largos, como os de quem pudesse alcançar o âmago com as próprias mãos.
Sorriu. Dessa vez de medo. Numa tentativa inútil de não sentir ausência. Aquilo que segundos atrás se transformara em seu inferno. Perdeu-se em seus próprios passos numa noção de tempo perdido. Sabia que estava vivo e aquilo bastava. Jogou-se, como quem se esparrama, meio de lado. Sentiu as pernas. Os braços. E o vento não balançou o cabelo.
Partiu e não olhou pra trás. Eram passos de medo. Como os de quem rastejava por não saber o amanhã. Baseado nos segundos de paraíso que pudera observar dentro daquilo que era o seu inferno.
Não foi tocado nos lábios com voracidade. Sua mente vagava pelo limbo que criara há instantes. Lá onde não pode se vir nos olhos dele. Calculou assimetricamente os anseios do outro e mergulhou. Sabia que iria se encontrar. Era tudo questão de tempo. E o medo fazia com que parecesse uma eternidade.
Olharam-se de forma a fugir um do outro. A essência fora perdida. E por instantes eternos não se encontraram um nos olhos do outro. Como quem busca a paz atrelaram-se os dedos. Numa medida de buscar bruscamente a raiz daquilo que causava a dor.
Ouvi seus gritos e arrepiei-me todo. Despi-me por completo, a fim de encontrar a semente que gerava aquela sensação oca extasiada no céu da boca. Não pude enxergar estrelas, nem nada. Mas o conforto veio por instante quando lembrei o seu rosto clareado pela vasta lua que nos seguia.
Dopei-me dessa insegurança toda. Fiz caretas no espelho numa tentativa inútil de o ser. Fui, durante segundos, aquilo que nunca ousei ser. Fervi meu corpo e com lâminas me cortei. Sangrava por dentro. Gangrenada. Cuspi no chão todo o desequilibro sentido. Misturei todas as essências ao alcance dos olhos e ventei. Chorei por segundos a paisagem opaca e embaçada dos olhos e não ousei gritar.
Abaixei a cabeça na calçada sem ladrilhos e por lá fiquei. Senti um peso nas costas e alívio nas mãos. Buscava-o nas entrelinhas. Havia tanto e nada pude enxergar. Deixaste-me cego. Fechei os olhos na tentativa de fazer com que aquilo passasse. Nada, que nada. Clarice me diria, sem rodeios, que o obvio saiu do meu âmago e que algo parecia florescer dentro de mim. Eram tulipas de todas as cores. Despedaçadas. Vivas. Comiam-me por dentro. Saciaram-se do que antes era o eu.
Abri os olhos. Arregalei-os. Busquei. A claridade invadia. Ceguei-me. Abri os braços. Não havia. Procurei-o por toda parte e não pude o sentir. Lembrei-me do texto da porta. Ela tinha razão quando pariu. “Permito que você tome meu corpo em seus braços e que suas mãos agarrem meus cabelos.” E nada aconteceu. Abri a caixa com a única coisa concreta que havia. Mãos trêmulas. Desfocadas. Tentando ir ao âmago. Deixava, portanto, se evadir.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ar seco.

SAEZ, Damien : « […] Des concerts en sourdine où je chante ton nom pour oublier le mien. Pour oublier un peu que toi, tu n'es pas là quand l'hiver se fait rude. Que je n'ai plus que moi avec qui partager ma propre solitude. […] Moi, je fuyais l'amour parce que j'avais trop peur, oui, trop peur d'en mourir. Mais à trop fuir l'amour, c'est l'amour qui nous meurt avant que de nous fuir. » 

Ouviu seus gritos.
Colocou os óculos mais perto dos olhos pra deixar de ver embaçado. Caminhou sem firmeza nos pés. Quanto mais próximo, mais distante os gritos que se perdiam entre um suspiro e outro.
Na tentativa inútil de matá-lo, corria a poesia pela sua veia. O sangue era vivo. Vermelho intenso e manchava o lençol branco que secava ao vento.
Fechou a porta com voracidade, impedindo que os sonhos escapassem. Era inútil. Foi inútil. Ele desistiu de sonhar depois de perder a voz.
Ele perdeu a voz. Perdeu a consciência e vagava entre um toque e outro do piano.
Sem entender, ele sentia.
Parou de sentir e foi sentar do lado de trás da porta. onde ventava. Fechou os olhos e sentiu a primavera, que o vento insistia em esfregar em seu rosto. 
Fechou os olhos e conseguiu ver o outro. Sofreu pela décima primeira vez. E pela décima primeira vez enxugou as lágrimas antes mesmo delas escorrerem em sua face.
Perdeu os sentidos e aumentou os decibéis. A música invadia a alma. A alma, por sua vez perdeu o fôlego na tentativa de pedir socorro.
Dessa vez ele não conseguiu enxergar o outro e percebeu ausência.
Tropeçou nos sapatos velhos deixados no caminho.
Eram concertos surdos, cantava o nome dele pra esquecer o seu.
Sentia o frio das noites quentes quando ele não estava por perto.
Fechava os olhos tentando ser exato, tentava esquecer a racionalidade e pensava nos lábios que há tempos não sentia. 
Grudou as pontas nos dedos nos cabelos caídos em frente aos olhos, abaixou a cabeça procurando escrever uma historia nova, menos exata, mais intensa e sem barreiras. Era em vão. Não sentia. Não era capaz nem ao menos de controlar sua respiração. Os dedos não corriam na velocidade dos pensamentos.
Era o fim daquilo que criou. Do monstro de si que conseguia ver através do espelho mesmo com as luzes apagadas. Pensava no amanhã como aquela fome de amor que sentira a instantes. Abriria a janela em vão, o vento não retomaria o mesmo curso. Nem ao menos as musicas o tocariam da mesma forma. 
Faria amor com o silêncio e em silêncio se entregaria ao vento, esperando ventar. 
Tentava diminuir um pouco da intensidade da luz que o cegava. Era em vão. Era amor, dor, vontade, tudo junto.
Tinha vontade de cortar o peito e arrancar com as mãos o outro. Mas percebeu que Era o outro inteiramente e que não podia mais fugir, sabendo que já não tinha mais forças para andar.
Fechou o olhos pela décima primeira vez esperando ser tocado nos lábios.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Afinal,

“Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda...”

eu o quis, com os argumentos de que ele também ousasse querer. A sensação que eu tive é de que os pingos de chuvas chorariam ausência por perder o ar, sufocados pela poeira em que os raios não tragarão. 
O ar, quase que fresco deleitava o que eu estive por sentir. Ora eram mãos e silêncio. Outrora gritos sem toque.
Metástase sem o mínimo de coeficiente em mutação. Eram os seios que jorravam vida, daquela que nunca ousou entregar-se ao mar. “Parece que o mundo foi feito prá nós”. Era sintonia e discórdia. Os olhos queriam bem mais que pudessem ter. Enquanto os corpos entrelaçavam-se tentando nesse aperto, buscar a essência daquele desencontro.
Estavam perdidos entre meios aos trechos curtos daquele teatrinho desconexo que tentavam atuar antes mesmo de o roteiro ser escrito e revisado. E então, os corpos suados se apagaram em meio à força que perderam e sorriram um para o outro, respeitando a intensidade individual.
Não se pode dizer que não houve sonhos. Não se pode dizer que não estavam inteiros, ali, um para o outro. As cicatrizes impostas eram visíveis. Talvez, por essa ou outra razão desconhecida eles tivessem que se abandonar antes do nascer do sol.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A fuga

Travestia-se de sonhos entre um cigarro e outro.
Sua voz soava como algo inesperado, enquanto seu sorriso representava o brilho que tentava esconder nos olhos.
As palavras eram simples, mas profundas, e, indagavam uma vontade inusitada de não querer partir, mas, de forma harmônica, sintetizava o que os lábios sentiam ao se tocarem.
Falavam das coisas que viveram, com a falsa ilusão de se encontrarem entre uma emoção e outra.
As mãos que os empurravam os aproximavam cada vez mais. Era obvia a distancia que tentavam se impor, mas cada toque deixava clara a aproximação.
Cada degrau que subiam, uma mistura de vontade e medo tomava conta dele. Enquanto o outro fechava os olhos e sentia.
Já com a certeza de que iria sentir o cheiro dele pela manhã, fechou as cortinas, para que o vento não espalhasse aquilo que deveria permanecer em silêncio.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

"Fazia frio, nevava em São Paulo..."


Os olhos sorriram de medo. As mãos trêmulas não puderam fazer o contato da derme. Esta tudo aberto. Faz frio aqui. “Juntos morreríamos, pois nos amamos”. A vontade do final da tarde para ver aqueles olhos castanhos brilharem ao encontro dos meus novamente. A alegria da manhã pra ver o sol nascer dentro de mim. Estamos (estou) perdidos em meio a tanta fumaça. Tantos nãos que eu já perdi a veracidade dos fatos. Embalei nos sonhos dele e gritei. Senti as vísceras todas, mas dessa vez do lado externo ao corpo. Gritei de dor ao entender a mutação dos órgãos. Dessa vez não é medo. Já vi muitos desses decepados tête-à-tête. Nada mais me apavora se não minha ausência. Perdi as medidas, já não sei mais onde começa um e termina o outro. E a diferença que se faz presente. A não negação faz meu coração bater mais forte. Eu me pergunto se ainda haverá outra vez. Outra historia, dentro de toda aquela que desenhei e ele não tocou. Uma projeção dos lábios que nunca se viram, mas dos corpos que (talvez) se amem em silêncio. De repente tudo isso é uma alusão do espírito. Mas a carne sangra. Ferida exposta. Carne viva. São as Aguas Vivas (da Clarice) que me interpelam. Sinto vontade dele. O sorriso inteiro, a voz interrompida, as conversas sem sentido atropeladas pela ânsia de ir adiante. O toque das mãos. O vento tocando em seus cabelos. E o seio da essência. Não é desejo. Não é carne, mas sangra. E vontade de pegar nas mãos e ir dançar na chuva. E que não haja chuva. E que chova na gente. Eu espero. Não sei por mais quanto tempo. 
Mas, eu.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sintonia.

Ele sorria. Tracei os sonhos ali. Densos. Frutivos e o nada.
Enxerguei todas as coisas das quais ele não podia me dar. Vivi. Amei. Sofri. Indaguei tudo o que tinha pra viver no instante em que ele sorria.
Ousei pouco mais invadir o eu do sorriso dele. Me perdi. Descobri ali quão doente sou. O é nunca aprende. E. No entanto. Sorrisos não são promessas. Mas porque o silêncio?
Ele sorria em silêncio. Indagava entre uma palavra e outra um suspiro mais contido. Pra ser. Por segundos pareceu-me que o eu do sorriso iria se entregar. Por segundos amei aquele sorriso. E o eu o odiou por todo o sempre.
Porque as coisas são de um eu assim tão profundo. Vai invadindo todo o corpo sem limites. A essência se perde no outro. Na razão de ser. Assim como a esperança do eu de amanhã. Ja não faz mais assim, tanta diferença. O ontém ja esta tão longe de ser o eu presente.
Para que servem os limites? As historias de amor ja estão mais pra estorias. O eu não é se não aquilo que se pode ser. A fada é quem conta o conto e eu confesso estar perdido. Perdi o eu.
Achei que fosse conseguir lidar com essa praticidade toda que é o agora. Mas não eu. Sou aquele. Sou Ser. Sou é. O de sempre. Tão antigo quanto a necessidade de respirar...
Não tem sorriso. Não haverão promessas. O agora é dor. O ser não faz parte do agora. Morro. Peço um tempo pra morrer.
Depois volto. Maduro. Menos intenso. Menos eu. Mais pratico. Aprenderei a dizer não. Não é e não ser. E o eu não vai experimentar o agora. Serei eu dentro do eu, buscando algo mais forte que essa pressão toda de lidar com o ser do sorriso, que na verdade não é eu. E nem faz parte daquilo que o espelho representa. Sou eu e eu aqui estou envolto de palavras e interrupções. So pra tentar ser. Sou eu ou eu sou aquilo que se tem de ser. O eu não pode ser eu. Existem barreiras pra poder ser aquilo que se é.
Existiram és. Mas o agora esta buscando o eu, pra ser. De quantas mais barreiras o é precisa atravessar pra chegar a ser. Não são dois. Ai que esta o problema de ser aquilo que é precisa ser. E que o eu não é e não pode ser.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Natureza morta.

"Ne prenez pas garde à mon teint noir: C'est le soleil qui m'a brûlée"

Fim. Não precisei fechar os olhos pra ver. Está ali. Sentia mas não o via.
Abusava do intenso brilho dos olhos. Sem tempo. Sem respiração. Sem cheiro. Nada.
Estava ali e não estava. O canto. A luz. De uma forma que me pregava nas coisas. Entender o óbvio. Esquecer a fonética das coisas. Embriagar-me dos objetos inanimados. Sorrir ao desconhecido. O novo. O medo. Perguntas. Razões. Respostas. Ou a falta delas. Sonhos. Regressões. Revolta. Causa. Complicações. Desejo. Medo. Sonho. Tristeza. Voz. Silêncio. Vozes. Delitos. Anseios. Esperança. Morte. Ação. Pausa. Movimento. Abuso. Vítima. Poder. Sorte. Medo. Muito medo.
Estava aqui. Agora mesmo. Não. Não estava. Complicações. Revoltas. Taras. Anseios. Ombro. Peito. Costas. Dialogo preso. Peito aberto. Frio. Calma. Dor. Muita dor.
Mescla de poder e barreiras. Humanidade. Sorriso. Dar as costas. Promessas. Tortura. Causa. Efeito.
O óbvio e o seu. Delírios. Amor. Dor. Assim. Sequência. Lágrimas secas. Secas lágrimas. Relógio. Angustia. Saudade. Medo. Morte. Sonhos. Sabores. Toque. Beijo. Carícias. Fidelidade. Eternidade. Sonho. Miséria. A terra se abre. Não o vejo. Porém. Ali estava. Não esta. Objeto. Crenças. Poderes. Dor. Fato. Sequência. Morte. Novo. De novo. Clico. Ganância. Versos. Poesias. Você. Vazio. Vazio. Você.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Voie D

"No dia em que você foi embora eu fiquei sentindo saudade do que não foi"
Lenine

Foi há instantes, mas já não me lembro se outono ou se o frio já tomava conta dessa paisagem delicada e fúnebre.
Olhamos-nos nos olhos como se ainda houvesse esperança. Não nos abraçamos. Os minutos tomaram conta da situação enquanto as evidentes barreiras tomavam forma juntamente os resquícios do que destruimos pra estar ali.
Sentia o inverno no rosto enquanto suas mãos se aproximavam. Tracei os sonhos no vapor e não os tive tempo de viver.
Ele me pediu pra fechar os olhos. Obedeci.
Foram suas mãos que tocaram os meus lábios, como quem precisasse uma forma de medir o desejo.
Não haviam promessas...
Estava cego. E vivia. As estrelas artificiais ultrapassavam as pálpebras. As cadentes. Essas estavam bem longe de acontecer.
E foi assim, nessa esquina, parado, que percebi o seu sorriso.
Agimos como se tudo aquilo existisse a muito. E como muito, mantivemos uma certa distancia real, que só o tempo pode deduzir.
Matei portanto, todas as formas possíveis de esperança antes mesmo que elas ousassem nascer.
De repente, essa vivência intensa de silêncios e presságios deixariam de existir.
Não falamos do amanha, o silêncio era mais forte.
Tentei ser o mais natural possível, mas nessa tentativa deixei de ser eu mesmo tentando ser aquilo que acredita ser o melhor.
A cada segundo, passos inertes. A cada fio de esperança que ousavam nascer eram sufocados pelo frio.
O amor foi-se embora, perdido.
Comemos e bebemos do óbvio até que ele se endormiu nos meus braços.
Não posso organizar sentimentos dessa forma. Empilhados numa prateleira qualquer, como papéis amarelados com o tempo.
Felicidade é endorfina. Sentimento é razão. Somos todos réplicas do medo.

sábado, 4 de dezembro de 2010

pages of the evolution

"Decifra-me ou devoro-te"

As vezes a vida faz você pensar em cinema.
Ficção é bem a palavra que evoca o novo. Alguns precisam de uma certa mudança. Já outros. Maníacos do seu próprio ego, egoístas de suas próprias faunas, criam certas barreiras contra si. Na tentativa de vingança, acabam afundando cada vez mais.
Inúmeras são as perguntas que você têm feito ultimamente a cada manhã no espelho, e, talvez, não no mesmo ritmo, uma outra parte de você foge das marcas cotidianas de expressão. Ignora o seu próprio reflexo.
O problema é bem mais massivo do que se pode pensar. O mercado te joga o produto, e, na maior parte  das vezes é você quem esta em evidência. Essa evolução constante pode ser comparada com o relógio inalterado. Ou seja, você é substituído por uma animada 'coisa'  nova. Perde-se então as medidas da importância de tudo o que fez, de tudo aquilo que você foi ou aquilo que você é desde então.
Do outro lado da rua alguém já deixou pra trás as evidências que eram suas, désormais devaneios e eis que a prova da criação que não passava, non plus, de um sucesso instantâneo que não fará diferença alguma na historia.
A historia, por sua vez, é reflexo da população atual. A mesma que se alimenta de televisão e respira dinheiro. Não há o outro, do outro lado da linha. Pessoas são sinônimos de trabalho, e o que entendia-se por trabalho, verdes cifras. A corrida desenfreada pelo nada.
Linhas aleatórias. Pessoas. Corrida. Tempo. E como colocar em evidência os paranóicos metódicos que entram em estado de calamidade se a marca do suco de laranja reformula a embalagem.
E a casca que importa. A precisão de peso e medida nunca foram tão cruciais quanto ao mal do século.
As pessoas precisam cada vez menos uma das outras que a natureza morta desperta uma beleza viva e real.
Crianças são pequenos exércitos de má vontade e o reflexo disso será bem claro. E se pensarmos no futuro presente, veremos que esses casos rotineiros de violência não passam da falta de limite.
Problemas como a camada de ozônio foram deixados de lado. O que realmente importa nesse momento é a liberdade de violência. Onde a expressão é a liberada falta de bom senso e valores humanos já não passam de ufania.
O século XXI deixou bem claro que o céu agora é cinza e que liberdade é sinônimo de impunidade. Guerras se tornaram tão necessárias quanto ao cotidiano e matinal jus d'orange.
Falta de comunicação é grave. Mas a raiz do problema esta de fato na interpretação dos fatos. Mas investir na educação é também criar contras. E essa demagogia não tem fim.
De um lado a direita, do outro, o social. O capital contra a esquerda. O social gera o capital, que por sua vez, devora o social.
A fome pelo novo nada mais é que a necessidade de virar essas paginas da evolução, deixar o retrogrado apodrecer e a revolução dar suas caras.
Se você pensar no 'novo-rico', vai perceber que a necessidade de mostrar é bem mais forte que a razão de ter. E a disposição do capital adquirido sobrepõe o social.
A liberdade é um passo ao risco. Essa busca desenfreada pelo nada é que faz a ilusória mudança. E não importa se você cuide apenas do 'seu'. Metodicamente, suas intenções atingirão positiva ou negativamente o outro.
A evolução nos faz entender na pratica como é o funcionamento da cadeia alimentar, ou o ciclo da vida.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Evidências

"Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita."
Budapeste - Chico Buarque


Não sei, de repente as coisas ficam assim, sem luz. São vários os caminhos e a busca intensa por uma resposta que não sei onde encontrar. Nem ao menos sei o que busco. Vagueio então, como os pássaros que buscam a luz do sol, e, claridade, no porém e no entanto esta cada vez mais forte.
Congelado em meu próprio frio enlouqueço. Traços os sonhos no vapor formado no espelho e entre meio aos devaneios, choro.
Somos todos em busca de tentar juntar os traços que fazem da nossa vida clausula dos nossos sonhos. Todos nos em algum momento da vida, pelo menos uma vez já bebeu pra esquecer, o que reforça ainda mais esse sentimento de fuga. Fugimos da nossa imagem no espelho como quem foge da solidão, embora nunca admitirmos estarmos incompletos quando estamos só.
A solidão é como um sonho bom que te faz acordar cheio de esperanças, o difícil é pegar no sono depois. Essa mescla de responsabilidade e sacrifícios precisam terminar. Devemos encontrar o ponto de equilíbrio entre os encontros e as despedidas. Ou fingir tornar tudo mais leve. Ter tempo pra observar os pássaros, com a certeza de que alguém nos espera. Não falo de busca, e sim da vontade que tudo isso termine logo. Sei que não da pra ter tudo. Sei. Mesmo não sabendo quase de nada. Mas a questão é não poder juntar só as coisas boas da vida e viver de sonhos. A questão é acordar já sabendo o que será do seu dia e torcendo pra que as coisas não piorem. Uma troca que não ocorre, é você contra o seu tempo, e as horas não passam, por mais que você tente tudo permanece imóvel.

E são os seus olhos que não enxergo mais nos sonhos...
Mesmo quando passamos algum tempo juntos, pareceu tão natural esse perplexo de ficção. Aproximei sem te sentir. Mas sabia que você estava la. Talvez a continuação de um sonho nunca vivido. Mas você fazia parte. Você, de certa forma faz parte dos meus sonhos. Assim como as reminiscência do garoto distraído e completado que fui. Ou que sou. Isso depende de dias.
Você estava la. Eu não te via. E nem você sabia que estava. Mas você esta dentro de mim, e sempre esteve. Uma hora você vai se dar conta de que anulamos tudo por conta de algo que nunca existiu. Barreiras impostas dentro da sociedade que prega valores e ao mesmo tempo interrompe a vida. Democracia extasiada. Peito aberto e desastre. Mortes e corrupção.
Mas não, no sonho, seus olhos perderam o opaco de outrora e voltaram a brilhar. Ainda que aos quinze anos, onde vivemos a cumplicidade de um mundo sem barreiras. Ser criança é, sobretudo não calcular os riscos. As consequências, essas vão depender da forma como você encara a vida. Das experiências que te foram impostas e as mesmas em que você buscou com desejo imenso de aprisiona-las dentro de você, mesmo sendo desconhecidas.
Não faz frio, nem calor, nem o tempo se fixa, é o momento onde devemos andar na corda bamba e saltar à qualquer momento. E de repente, seja o momento de mais um sacrifício pra conseguir algo la na frente. São as experiências, principalmente as que te maltratam com maior voracidade que te fazem ser aquilo que você é hoje. O ser de amanhã pode não depender do hoje, mas sim de um não, que te foi necessário quando criança, mas que você era inotavel e precisou tomar sozinho as mais difíceis decisões da sua vida.
Hoje o medo já não faz mais parte. As grandes coisas já não são mais de grande valia como os caquinhos que a gente recolhe no dia-a-dia. O medo é o amanhã, as rugas na face que vão te mostrar não somente até onde você foi capaz de chegar, mas sim, a cada vez que olhar no espelho, o espelho é que vai te jogar na cara todas as vezes em que teve oportunidade de ser feliz e preferiu dar as costas. Mas esse dia vai chegar e você vai precisar se enfrentar. Existem muitos espelhos. Escolha o seu antes que seja tarde. De repente de um segundo pro outro você volte a ser a criança invisível e chata que sempre foi. Você vai perder o interesse pelas pessoas porque elas deixaram de brilhar. Não haverá, portanto luz pra te guiar. Restara apenas o escuro, e esse não vai te guiar. Não poderá enxergar nem um palmo diante da sua face. Vai precisar se guiar perante todos os conhecimentos que obteve ao longo da vida. Mas não saberá de quais buracos desviar e vai voando para o precipício, esperando que a magica aconteça e que você acorde. Mas ai, você percebe que, na verdade, os sonhos são reais, e, o que parece vida, são apenas reflexos das fugas do eu. Acreditando que odiamos nos outros tudo aquilo que não suportamos na gente.
E esse o tempo que eu proponho. Esse vazio que me faz ter vontade de sair correndo daqui. Mesmo sabendo que a felicidade não existe. E que, afinal das contas, vivemos numa busca desenfreada de tempo. E, quanto mais refletimos mas nos damos conta de tão eloquentes de fato nos somos, fazemos de tudo, o mais complicado possível, mesmo sabendo de antemão que as respostas só podem ser encontradas nas pequenas coisas, nos pequenos prazeres que nos deixamos de viver pra prestar atenção no relógio que roda, repentinamente.
No meu caso essa mescla de desespero é quando a hora não passa. Quero o dia de amanhã. Caminhei demais e me doem os pés. Esqueci a fé, os sonhos e a ânsia de viver pra poder pegar no sono.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Cancer.

"Finalmente vi sua mão soltar da minha, como a de um afogado..."

A tarde estava linda, cheia de sol, de vida enfim, mas com certeza do lado de la as coisas não estariam ao mesmo modo. Fiquei então, pensando em toda dor em que eu fui privado de partilhar por estar longe. Todo o brilho de seus olhos castanhos redondos que eu não verei mais...
Ali, frente ao cair do sol, percebi então, que mais uma vez era hora de por um ponto final na historia, mesmo sem querer que ela acabe. Como um pedaço da gente que apodrece e cortamos fora. Amputação é a palavra e como me sinto agora.
Certamente acabo também, perdendo alguns anos de vida, se bem que as perdas estão acontecendo cada vez mais frequente, como os cabelos brancos...
Percebi e também fingi estar bem, mesmo que o meu coração pulsasse pra sair pela boca. A pior parte de tudo é não poder segurar as mãos e sentir o seu calor de perto.
Os pensamentos atravessam com muita pressa as montanhas em busca de sol, mas morre na praia. O jeito é fingir estar bem para que as coisas não fiquem ainda piores.
Eu não posso decidir nada, de nada. Tampouco sei o que se passa em minha cabeça agora além da imensa vontade de também fechar os olhos...
O meu mundo se escureceu. O céu esta coberto de cinza e eu não sei quando é que poderei me acostumar sem essa parte que sempre me faz tanta falta. Mais perdido que de habito e não sei pra que lado expressar essa minha fúria com a natureza. Não pensei que esse dia pudesse chegar e espero acordar a tempo de perceber que não se passa de pesadelos...
Esperei a minha vida toda pra estar perto. Foram dez anos e seis meses de boas historias. Existem coisas na vida que nos fazem um incompreensivo bem. Partes do quebra-cabeças que nos faz entender que podemos amar sem esperar nada em troca. Juste comme ça.
E os planos de passearmos juntos no parque? Quem fará festa quando eu chegar? Me cobrindo de amores, um amor sincero do qual eu jamais senti na vida...
O que sinto agora é o sal na boca e a saliva amarga.
Ainda sem ar com a noticia de que as coisas não estão nada bem... Por que devemos continuar se faltam partes que completam? Peças essas, importantes para que a nítida imagem da felicidade possa estar completa. Meus pensamentos estão em fase de metástase, assim como meu corpo, recolho os cacos caídos pela estrada. E os nossos planos? E daqui pra frente?
Chega dessas surpresas desagradáveis...
Se eu pudesse... Estaria agora segurando suas mãos até o ultimo suspiro. Pois amor a gente entende, assim... Sem limites. Só amando...
Me perdoa por estar longe. Tão longe que já não pode mais sentir minha presença nesse espaço físico, que esta cada vez menor. Cada vez mais difícil de respirar, não é mesmo? Se entregue a dor e se deixe levar... Estarei aqui, a cada dia, pensando em você, e, te amando cada vez mais sem limites, sem pudor e com saudades, saudade boa, mas que parte ao meio. Dor, angustia e sangue.
Você esteve ao meu lado nos momentos mais difíceis da minha vida e agora eu não estou ai pra retribuir toda essa cumplicidade.
Entenda, não é egoísmo. Eu tinha planos pra gente, juro que tinha...
Mas existem coisas na vida que não podemos entender. Se chegar seu tempo, vou pedir pra Deus estar com você a todo instante. Você estará então mais próxima de mim e poderá sentir a essência do meu amor por você...
Assim de perto a gente vai longe. Porque não suporto a ideia de não ter você por aqui. Sabe, saudade é algo que a gente cativa  por nos fazer mal, e, quanto mais a saudade aumenta, mais a gente sofre.
E assim, até que que não suportamos mais e o corpo pede pra parar...
Acredito que é o momento em que o espírito pede um pouco de paz. Mas então cada vez em que eu olhar diretamente para o sol, farei com que ardam meus olhos e nessa cegueira poderei te ver ao meu lado.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Não agora.

"Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira."


Estou lutando contra todos os meus demônios. Agora. Na boa companhia do bom vinho. Encorpado e seco.
Penso em saudade mas não as posso consolidar. As coisas não estão em boas frequências, não agora.
A metade vazia esta gritando bem forte nos meus ouvidos, é como se tivesse agua dentro e eu não as posso distinguir. São fluidos sonoros que me dizem besteiras sobre a vida, e o espelho não geme de vaidade, não agora.
Começo a prestar atenção naquilo que me irrita nos outros, e, na verdade não há nada mais nítido que o reflexo infinito. Toda essa falta de estrutura é bem mais externa que interna. O desconhecido causa rejeição e medo e disso tudo eu já estou de saco cheio...
Enchi a taça até a boca, mais não a deixei transbordar, mas é bem melhor ver de frente, tudo completo, mesmo que de vazio.
Faz alguns dias que não consigo ver a lua, tem nuvens por toda a parte, essa é a parte boa e a ma de se estar a tantos e tantos quilômetros acima do nível do mar. A solidão latente e as reservas de vida que a gente espera por chegar...
Saudades dos velhos boleros, das valsas que eu não dancei, do vinho que deixei morrer dentro do copo e que virou vinagre.
O sol voltou, com ele a vontade de buscar a vida, são reflexos de uma bipolar idade aflorada. Falta de sexo no tempo e o contrario já não posso mais. A outra parte de uma mesma cultura, refletida através de uma mesma língua que tento decifrar a cada instante. Medo ou delírio. As coisas parecem mais claras e cada mais complexas. Vejo cada dia mais como a cultura é refletida pela língua que as pessoas falam. E posso dizer que dentro de uma só língua existem varias e varias culturas, desbravadas particularmente cada uma em seu território.
Estou aqui e la, estou em todos os lugares, ao mesmo tempo. A cabeça vai bem mais longe que a capacidade do corpo de acompanhar, mas estamos vivos. Ainda...

domingo, 12 de setembro de 2010

O vento.

"Ce parfum de nos années mortes
Ce qui peut frapper à ta porte
Infinité de destins
On en pose un et qu'est-ce qu'on en retient?
Le vent l'emportera
Pendant que la marée monte
Et que chacun refait ses comptes
J'emmène au creux de mon ombre
Des poussières de toi"
Noire Désir

Ja era tarde, embora tudo tivesse passado tão rapido que eu nem me dei conta de que não havia mais nada o que sentir. A partida foi ainda mais rapida que o tempo de espera.
Não foi nem mais, nem menos intenso que das outras vezes, mas o vento carrega as dores de outrora e tudo o que vem a partir de agora sera bem mais delicado que antes. A pele morta devera tomar seu rumo e me deixar em paz!
O espelho quebrado mostra a face desfigurada depois de tempos sem dizer a que veio. As coisas por aqui são diretas, embora também sigam um certo caminho. A cama de flores não existe mais, deixaremos o petit déjeuner para uma outra estação.
O outono se aproxima. Talvez ainda haja qualquer sorte. Qualquer esperança. Ainda é verão, embora tudo comece a ficar branco, coberto de gelo e as arvores se despedem das folhas que começam a cobrir toda a paisagem noire et blanche da tão distante montanha.
Não tenho feito outra coisa se não pensar em uma maneira de estar bem comigo mesmo. Momento de cuidar do espirito, embora o corpo nos embala a viver.
E tudo novo, e tão velho. E o choque cultural cada vez mais particular, partindo de extremos inconnus quando o sol começa a deixar de 'dar-as-caras' por aqui.
Somos todos perdidos e ao mesmo tempo adressados pelas responsabilidades que na maioria das vezes nos fazem perder o controle.
Por que, se perto do sol é tudo tão frio e delicado por aqui?
Estamos aqui com o corpo, a mente busca uma orientação por meio dessas curvas perigosas e abismos dos quais damos as costas. Tudo vira po em questão de tempo, mas a memoria fica.
Os anseios, os medos, tudo isso fica.

sábado, 17 de julho de 2010

Vin Rosé.

"... o convite do silêncio exibe em cada olhar. Guardei sem ter porque, nem por razão ou coisa outra qualquer, além de não saber como fazer pra ter um jeito meu de me mostrar. Que nunca soube dar o amor que tive e vi sem me deixar sentir, sem conseguir provar, sem entregar. E repartir."
(Nando Reis)

Tirei os sapatos porque estavam ja me apertando os pés, ao mesmo tempo sorri, sorriso largo, escancarado como se tivesse realmente apaixonado. Na verdade so tinha me dado conta que estava me sentindo de alguma forma, feliz... Não posso dizer que não, mas existem rastros de que alguma forma ele mecheu comigo. Talvez a forma diferente de encarar os fatos, as minhas, ou as dele. De repente os dois se encontraram ou seja apenas delirio meu.
Ja era tarde, uma tarde de domingo, havia tanto sol que ardiam os seus olhos, eram tão claros que doiam também os meus, de tão claros, chegavam a ser transparentes...
Ficava sem jeito todas as vezes em que ele arrumava uma desculpa pra me olhar nos olhos. Aqueles azuis como nunca antes haviam entrado aos meus olhos, como forma de hipnose.
Com esse mesmo sorriso largo no rosto, falamos de coisas que nos passavam na mente, como se nós nos conhecêssemos afinco, a conversa fluia e sol continuava la, perpétuo e intacto.
Não me lembro da quantidade de cigarros que ele fumou, na verdade falamos sem parar e todo tempo. Não houve o espaço do silêncio. Estavamos ali e nós dois bem sabíamos o que nos deixara anestesiado quanto ao resto do mundo. Mas nenhum dos dois em momento algum entregaria os pontos. Não foram precisas palavras dificeis, so de se levar deixar pelo vento momentâneo inexistente que os dois criaram... 
Fechei os olhos varias vezes, mas eles permaneceram abertos enquanto eu o observava intensamente, vivemos sonhos que nunca sonhamos... A hora da chegada e da partida. Eu pararia ali, naquela garrafa de rosé. 
O perfume se confundia enquanto os corpos pediam uma certa aproximação que talvez aconteceria mais tarde. Ele tinha o brilho nos olhos, olhos cor-do-céu, como os da infância, talvez pouco mais transparêntes, mais intensos. Os cabelos claros, embora ralos, e a pele mais rosada que ja vi na vida. Usava uma polo rosa e uma bermuda quase-social, como de quem acaba de deixar o terno-e-a-gravata pra respirar um pouco, sabe?
Não demorou muito pra terminarmos com a garrafa, talvez ambos com a  pressa de poder se aproximar ao maximo e de se entregar, sentindo cada pedacinho daquele precioso tempo que percorria o corpo, a alma. Saimos de uma forma ainda mais apressada do que a chegada do local estratégico onde ele tentava de todas as formas ganhar minha atenção. Ele não sabia, mais ja tinha bem mais que isso e poderia sem pudores pular toda essa etapa. De repente, se assim fosse, passaria... 
O elevador parou no primeiro andar, quase ao mesmo tempo em que perdi os sentidos na primeira das muitas vezes aquela noite. Tudo parecia calculado, o meu espaço e o dele, o dele e o meu que não demorou muito a se tornar o nosso espaço...
Me toca verdadeiramente essa forma breve em que o ser humano se entrelaça em outro, buscando a essência e esquecendo medos. Inflingindo a liberdade se prendendo nos braços do outro.
Ele me apertou forte, como quem pedia atenção, foi então que toquei nos seus labios pela primeira vez...